sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

TURRISI, P. O papel do pragmatismo de Peirce na educação. Cognitio-Estudos: Revista de Filosofia, São Paulo, n. 3, nov 2002.



Por Claudinei Chelles

 

Partindo de um referencial Peirceano, Turissi apresenta sugestões na direção de uma educação pragmatista, considerando os modelos de instrução direta e o construtivismo. A autora busca disponibilizar aos professores instrumentos por meio do pragmatismo para o ensino mais eficiente. Assim, a proposta do texto é interrogar dois distintos extremos filosóficos de ensinar, e compará-los com a prática de ensino que o pragmatismo de Peirce sugere. No primeiro momento demonstra como Peirce interpreta a “instrução direta” e o “construtivismo” por meio do aspecto do pragmatismo. No segundo momento é uma proposta de como a educação de nível superior pode apoiar-se no pragmatismo, bem como de uma avaliação sobre este contorno de intervenção.
Na primeira parte, referente à Instrução Direta, mencionando uma breve genealogia crítica, Turissi cita que John Dewey (1897, 1926) estabeleceu uma fundação para o construtivismo e consequentemente ultrapassa o “método tradicional”[1] de ensino, já que suas ideias afirmam que a vida social não era apenas idêntica à comunicação, mas toda comunicação (e, portanto toda vida social genuína) era educativa. (...) Toda comunicação é como a arte. Pode-se com justiça afirmar, portanto, que qualquer arranjo que se mantenha vitalmente social, ou vitalmente compartilhado, é educativo para aqueles que dele participam. Apenas quando ele se torna engessado num molde e passa a funcionar de uma maneira rotineira, ele perde seu poder educativo. No final, portanto, não apenas a vida social requer ensino e aprendizado para sua própria conservação, mas o próprio processo de viver junto educa. Ele amplia e ilumina a experiência; ele estimula e enriquece a imaginação; ele cria responsabilidade pela precisão e vivacidade da fala e do pensamento. Um homem vivendo realmente sozinho (sozinho tanto mental quanto fisicamente) teria pouca ou nenhuma oportunidade de refletir sobre sua experiência passada para dela extrair sua rede de significados.
Para a autora, na educação a “instrução direta” é uma forma contemporânea, ainda presente nos métodos de ensino de escolas elementares, já que no ensino superior sua presença ocorre pela presença do “método da aula expositiva”. A “instrução direta”, fundada na década de 1960, nos Estados Unidos, sendo tradicional no processo de ensino-aprendizagem tendo como interação os scripts de perguntas e respostas, com o argumento que os resultados são melhores que as técnicas cognitivas. O método de aula expositiva é o modelo de educação superior herdeiro da educação tradicional. Para ela esse molde admite que o aluno é uma caixa e o professor ensina colocando conhecimento na caixa. Ou seja, o aluno é receptor passivo, já que no artigo de Peirce ”A Fixação das Crenças” pode se encontrar uma versão dessa refutação. O método de instrução tradicional direta, ou da aula expositiva, seria, nos termos de Peirce, autoritário. Ou seja, alguém que não o crente subsequente decide o que as crenças deverão ser, expressa-as, e as reforça. As restrições do ensino e aprendizado acrítico e autoritário propiciam uma revolta ao sistema de educação tradicional.
Conforme a perspectiva de Turrisi, o construtivismo seria uma opção para projetar um sistema de educação no qual a construção do significado de seu aprendizado, pelo estudante individual, é considerada uma prioridade. Sendo que mais adiante busca referenciais em Jean Piaget, Jerome Bruner e Lev Vygotsky, assim como em John Dewey. Para ela esses pensadores focaram o aprendizado para a vida interior do indivíduo. Ou seja, “enquanto experienciamos algo novo, o internalizamos por meio de nossas experiências ou construções de conhecimento que estabelecemos previamente”.
O construtivismo considera-se livre de dogmas. Até certo nível, então, ele está livre do dogma da autoridade e das crenças não derivadas através de um processo interno. O dilema a priori é este: apenas porque eu possa vir a crer em algo, isso não implica que outros virão a acreditar na mesma coisa. Se nós vivemos em comunidades, um universo público de qualquer tipo, é importante reconciliar aquilo em que eu acredito com aquilo em que outros acreditam. Planos educacionais construtivistas atentam para estas questões algumas vezes ao não avaliarem os estudantes através de um conjunto de critérios padrões, mas os encorajando a criarem portfólios sobre suas investigações que eles mesmos interpretam e avaliam. No conhecimento construtivista por teoria não se acredita que aquilo em que pensamos é verdade sobre uma realidade independente, mas apenas que é “verdadeiro para mim.” A ideia de que possamos experimentalmente determinar a verdade sobre uma realidade independente é impossível nos termos do construtivismo.
            Na segunda parte, sob a perspectiva do pragmatismo, considerado um método científico de pesquisa, ensino e aprendizado, a autora apresenta notas de Peirce (1903) escrevendo sobre as passagens que revelaram suas ideias a respeito inclusive da importância da lógica ser efetivamente considerada no âmbito de uma educação liberal. Ainda, ela cita que Peirce propõe seu “processo de formar opiniões filosóficas” e seu “método de discutir consigo mesmo uma questão filosófica”, já que nada pode ser aprendido de livros ou de aulas. Eles não devem ser tratados como oráculos mas simplesmente como fatos a serem estudados. Então, os fatos devem ser ensinados e aprendidos pelo pragmatismo, que apresenta três elementos significativos para a educação, que são: (1) a dependência das ciências em relação à lógica; (2) a natureza categorial do pensamento; e (3) a aplicação das categorias à realidade.
Turrisi apresenta que os ramos da lógica correspondem às três categorias da Fenomenologia, descobrindo e modelando o raciocínio que é representativo das relações entre a Primeiridade, Segundidade e Terceiridade. A primeiridade refere-se ao fenômeno do sentimento, à percepção; a segundidade refere-se ao elemento de um fenômeno de força ou luta, à reação; a terceiridade é um meio entre um Segundo e seu Primeiro, uma representação, um geral ou uma lei. E, os correspondentes da lógica são a abdução, a dedução e a indução. A abdução origina uma ideia; a dedução examina os argumentos possíveis relacionados às ideias; a indução examina o grau pelo qual os argumentos são produzidos na experiência. O pragmatismo é o trabalho com as representações do começo ao fim.
Educadores que utilizam da instrução direta ou do construtivismo centrado no estudante, negam o desejo por tal método. A instrução direta ensina leis já descobertas como dogmas enquanto o construtivismo nega a existência de todas essas leis. O construtivismo promoveu métodos de ensino e aprendizado que preenchem algumas das condições necessárias para um pensador provir abduções. Escrever para aprender, discussões, e técnicas de aprendizado experiencial estimulam um ambiente no qual os estudantes assumem responsabilidade por proporem e solucionarem problemas de sua própria criação. Possibilitar a experiência produz familiaridade com o fenômeno. Há uma grande oportunidade para introduzir os ramos da lógica que lidam com predições e as respostas de fenômenos naturais a inferências que provam ou negam sua validade. A habilidade do pragmatismo de influenciar a concepção da realidade do estudante, e o engajamento com ela, melhoraria significativamente a educação moderna.
Portanto, Turrisi sugere que o espírito do pragmatismo torne-se manifesto na sala de aula: (1) a lógica deveria ser ensinada a partir da menor idade possível e continuada através de toda a educação superior; (2) a lógica deveria ser aplicada como um método para considerar quais efeitos, que poderiam concebivelmente ter conseqüências práticas. Estudantes deveriam ter oportunidades de praticar o método do pragmatismo; (3) possibilitar aos estudantes que se conscientizem de quão longe foram investigações sobre dados fenômenos. Pois, as mudanças promovem o “pensamento correto”. Condição em que os professores não são os juízes da verdade; a realidade é. Os alunos estudando lógica são apresentados às questões e problemas com que seus professores se acostumaram há bastante tempo.
Assim, os educadores precisariam acompanhar tais transformações promovendo que os alunos encarem o pensamento antes que eles considerem que tenham aprendido alguma coisa; e ele não se incomodaria de dedicar um tempo considerável a isso. Portanto, o treinamento em lógica seria uma solicitação para professores e estudantes. A experiência seria o fundamental para o ensino. A educação é um “objeto de concepção” do humano, cujo todo não é inteiramente conhecido ou compreendido. Tanto a instrução direta quanto o construtivismo não garantem, pelos seus pressupostos científicos, uma crença de que os objetivos da educação possam ser atingidos através desses métodos. Isso justifica que o método pragmatista de educação proposto auxilia a lógica para encontrar os efeitos, que poderiam repercutir na compreensão da realidade.

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[1] Rote method, no original. (N.Trad.)

 

EDUCAÇÃO: ÁREA DE SABER MULTIFACETADA


O conteúdo abordado na disciplina foi para mim de grande valia, já que as atividades e leituras propostas proporcionaram ampliar conhecimentos de autores que não fazem parte da minha formação.
Em decorrência da minha prática e do trabalho que pretendo desenvolver, irei novamente abordar o assunto no qual Charlot denomina de objetos sociomidiáticos e um dos assuntos que está constantemente em foco nas opiniões e reportagens é o índice dos estudantes do ensino fundamental, o que irei direcionar para o processo de aprendizagem.
Aprender? Palavra de poucas letras e sentido tão complexo...o que gira ao seu redor? De que depende? O que é necessário? Como ocorre? São muitos questionamentos que somente uma palavra provoca e mais, há uma diversidade de concepções  a seu respeito.
Charlot (2006) refere que alguns educadores ainda erram em pensar que apresentar o conhecimento por si só leva a movimentar a inteligência.  Assim,  pontua a necessidade daquele que ensina compreender como pode mobilizar intelectualmente aquele que aprende.
E o que significa tudo isso? De acordo com Charlot (2006), o educador deve fazer algo e provocar a mobilização intelectual  estando ciente de que a produção do conhecimento dependerá da atividade intelectual do educando, sendo que este poderá bloquear esse processo. Mas, como? O que é necessário para se mobilizar? Ao lidarmos com questões biológicas internas podemos relacionar com o funcionamento do Sistema Nervoso Central (SNC)?
Do ponto de vista da neurociências, sim, pois o aprender é um processo complexo e depende de adequadas condições e oportunidades  em que o SNC desempenha um papel essencial, uma vez que coleta e armazena dados permitindo o acesso e seu uso na alteração do comportamento (THOMPSON, 2011). De acordo com o esclarecimento de Friedrich e Preiss (2012), a neurobiologia explica que o aprender está relacionado com o emocional, ou seja,  os sentimentos exercem papel relevante na capacidade de percepção e atenção, isto significa que se a aula for agradável despertará a curiosidade e interesse do educando e assim, a aprendizagem será significativa. No entanto, atentam para a importância da interação com o mundo ao redor no desenvolvimento biopsicossocial. Em suma, o aprender é de ordem multifatorial uma vez que depende de fatores biológico, ambiental (família/escola), emocional e sociocultural.
Desse modo, podemos fazer uma relação com o pensamento de Charlot (2006) ao referir que o processo ensino-aprendizagem ocorre por uma articulação tripla (educador, educando e instituição – esta última podendo ser a escola, família), em que o “fazer” político está do lado da instituição e o intelectual do professor, mas o resultado dependerá do educando. Tal relato corrobora com o ponto de vista de Thompson (2011) de que a aprendizagem depende da relação integrada entre indivíduo e o meio envolvendo condições extrínsecas e intrínsecas. Isto nos leva a entender que cada indivíduo está inserido num determinado contexto (ambiente) e tem o seu modo e ritmo de desenvolvimento, tornando visível a singularidade, a diversidade.
A distância existente entre a teoria e a prática e o erro de trabalhar   partindo do que deve ser uma escola ideal são outros aspectos relevantes apontados por Charlot (2010). Acredita que  deve-se primeiramente é entender a realidade educacional e intervir de acordo com essa realidade.  Neste ínterim concordo com o autor porque na pesquisa que realizei com professores de uma escola pública com média  abaixo do esperado, desenvolvi um trabalho para identificar suas necessidades e  obtive resultados que merecem atenção como dificuldades em trabalhar com um grupo heterogêneo, em relacionar teoria e prática, em elaborar estratégias de ação, em trabalhar coletivamente entre outros. No entanto, a articulação de outras áreas nesta questão torna-se fundamental.
Vale dizer que em momento algum quero dar ênfase somente ao ponto de vista da neurociências, mas a intenção é apontar a multiplicidade de áreas envolvidas no processo de aprendizagem, a importância de cada uma delas, bem como suas contribuições no âmbito pedagógico, político e social.

REFERÊNCIAS

CHARLOT, B. A pesquisa educacional entre conhecimentos, teorias e práticas: especificidades e desafios de uma área de saber. Revista Brasileira de Educação, v.11, n. 31, jan./abr. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v11n31/a02v11n31.pdf>. Acesso em: 14 dez. 2012.     

_________. Desafios da Educação na contemporaneidade: reflexões de um pesquisador. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 36, n. especial, 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ep/v36nspe/v36nspea12.pdf>. Acesso em: 14 dez. 2012. 

Mentecérebro. Como o cérebro interpreta o mundo. 2ª Ed. São Paulo: Duetto Editorial, 2012.

THOMPSON,R. Neuroeducação: um novo olhar sobre a relação entre Saúde e Educação. In: MAIA, H. (Org.). Neuroeducação: a relação entre saúde e educação. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011. p.19-30.

Das tricotomias no pensamento peirceano


A partir da discussão sobre o livro-tese “O jogo da cultura e a cultura do jogo: por uma semiótica da corporeidade”, de Pierre Normando Gomes-da-Silva (2011), houve certo aprofundamento da compreensão da noção de relações triádicas no pensamento de Charles Sanders Peirce. Conforme o autor, as  relações triádicas no processo de semiose podem ser subdividas em:
                -relações triádicas de comparação (participam da natureza das possibilidades);
                -relações triádicas de desempenho (participam da natureza dos fatos);
                -relações triádicas de pensamento (participam  da natureza das leis).
Contudo, nessas relações há distinção entre 3 correlatos:
                1º, de natureza mais simples, considerado mera possibilidade;
                2º, de complexidade intermediária, que se dá pela existência concreta;
                3º, de natureza mais complexa, manifesto por leis ou tipo geral.
                Essas relações triádicas, de acordo com os correlatos, dividem-se em tricotomias.
Níveis
Caracte-rísticas
Campo
Tipos de análise
Si mesmo
Objeto
Interpre-tante
Primei-ridade
Qualidade
Do possível
Sintático
Quali-signo
Ícone/ hipoícone: imagem/ diagrama/ metáfora
Rema
Secundi-dade
Ação/
Reação
Do existente
Semântico
Sin-signo
Índice
Dicente
Terceiri-dade
Genera-lização
Da lei
Pragmá-tico
Legi-signo
Símbolo
Argumen-to
Fonte: quadro da pág.256.
Porém, há outras relações triádicas, que são detalhadas nas dez tricotomias propostas por Peirce (de fato, Peirce apresenta maior detalhamento das tricotomias I, IV e IX):
                I-relação do signo consigo mesmo (quali, sin, legi-signos);
                II-modo de apresentação do objeto imediato (descritivo, designativo, copulante);
                III-modo de ser do objeto imediato (abstrativo, concretivo, coletivo);
                IV-relação do signo com o objeto dinâmico (ícone, índice, símbolo);
V-modo de apresentação do interpretante imediato;
                VI-modo de ser do interpretante dinâmico;
                VII-relação do signo com o interpretante dinâmico;
                VIII-natureza do interpretante final;
                IX-relação do signo com o interpretante final (rema, dicente, argumento);
                X-relação do signo com seu objeto e o interpretante.
                Acerca das três tricotomias mais detalhadas, na I a relação do signo com o próprio signo implica na interrelação entre quali-signo, sin-signo e legi-signo, na qual o quali-signo é um signo ainda não corporificado ou realizado. Por sua vez, o sin-signo é um acontecimento real e envolve quali-signos e o legi-signo é uma lei que é um signo convencional (significante que ganha significado por meio de sua aplicação – réplica/sin-signo).
                Como exemplos o autor aponta:
                -quali-signo ou poti-signo: “faça o que digo, mas não faça o que faço”;
                -sin-signo ou acti-signo: signo experimentado aqui e agora, unicamente, irrepetível, e.g. “cada rosto”;
                -legi-signo ou “signo familiar”, e.g., “Cuidado! Nesse lugar há travessia de crianças brincando”.
                Acerca da IV, a relação com o objeto dinâmico implica na interrelação entre Ícone, índice e símbolo, na qual o ícone faz ver o objeto por força de caracteres próprios ou por semelhança. Nesse sentido, há hipoícones divididos em: imagens, diagramas e metáforas. Já o índice indica o objeto em razão de ser afetado por ele e o símbolo representa o objeto por força da lei.
                São apontados como exemplos:
                -ícone por meio de imagens, diagramas e metáforas: respectivamente, letra “V”, estalar os dedos e aperto de mão;
                -andar cambaleante como indício de embriaguez;
                -mão em figa para exemplificar o símbolo.
                Finalmente, na IX há a relação com o interpretante final, que implica na interrelação entre rema, dicente e argumento. Nessa relação, o rema é uma conjectura, uma hipótese interpretativa. Não obstante, o dicente ou “deci-signo” é um signo de existência concreta que oferece base para sua interpretação, ao passo que o argumento é signo de lei, que representa seu objeto em caráter de signo, juízo e assevera uma proposição.
São tidos como exemplos:
                -para o rema, uma garota saltando pode ter a forma de um salto coreográfico de uma bailarina;
                -para o dicente, ao apontar o estado emocional por meio da comunicação facial;
                -para o argumento, e.g., o envolvimento do m. orbicularis oculi ao definir um sorriso genuíno.
Estrutura sígnica
Tricoto-mia
Primeiridade
Secundidade
Terceiridade
REPRESENTAMEN
I
Quali-signo
Sin-signo
Legi-signo
OBJETO imediato
               dinâmico
II
III
IV
Descritivo
Abstrativo
Ícone
Designativo
Concretivo
Índice
Distributivo
Coletivo
Símbolo
INTERPRETANTE imed.
                       dinâmico:
emocional, energético, lógico
                        final
V
VI
VII
VIII
IX
Hipotético
Simpático
Sugestivo
Gratificante
Rema:
Categórico
Percussivo
Imperativo
Prático
Dicente:
Relativo
Usual
Significativo
Pragmático
Argumento


Quali-signo icônico; Sin-signo icônico; Sin-signo indicial; Legi-signo icônico; Legi-signo indicial; Legi-signo simbólico
Sin-signo indicial; Legi-signo indicial; Legi-signo simbólico

Fonte: quadro da pág.264
Com intenção de elucidar eventuais aplicações no campo da Educação Física, mais especificamente no estudo da semiótica do jogo motor, o autor aponta que a semiótica na investigação do “jogo motor” consiste em desvelar o arranjo criado pela sucessão dos gestos na atividade lúdica. Entende-se, nessa perspectiva, que os feixes de ações e inações corporais tanto configuram a fisionomia do jogo, sua natureza peculiar ou cultura própria.
                A “cultura do jogo” é tida, assim, como uma construção social, provida de sentido e significado. Ela é organizada pela interação dos sucessivos gestos vividos no espaço e no tempo de uma situação lúdica.
                Por sua vez, a situação lúdica é o contexto criado pelos jogadores ao jogarem e, em decorrência, entender a cultura do jogo significa decifrar a lógica ou o sistema de significação que orienta a conduta dos sujeitos que brincam.
                Em síntese, o autor conclui sua argumentação com alguns exemplos de jogos. Afirma que os jogos de “azar” seriam os jogos humanos por excelência (conforme Caillois) e jogos infantis seriam os primeiros no desenvolvimento humano (conforme Piaget). Nessa alegoria, pormenoriza três “cenas” de situações do jogo de roleta e três observações de situações de jogo infantil.
                Para contextualizar a pergunta central do autor, concluirei este comentário com outro exemplo de jogo, no caso o xadrez:
A pergunta do autor é “Qual é a tendência dos gestos na cultura do jogo?”. E ele faz referência à tendencialidade da composição dos gestos no jogo, bem como indica que há busca por um tipo geral de legi-signo, que  governaria “réplicas singulares”. Para o autor, já a semelhança entre o jogo particular e sua configuração geral é um ícone, do tipo rema, porque é o interpretante final.
Pois bem, no caso do xadrez cada posição é particularmente irredutível em sua significação, porém há três momentos importantes:
-no início há que se optar entre as inúmeras possibilidades e, a partir da escolha feita, os lances seguintes e as combinações que se derem têm infinitas possibilidades. Tanto isto ocorre que não há “lance errado” no 1º movimento do jogo. Contudo, há preferências entre os jogadores e são elas que os mobilizam para suas escolhas. Nesse sentido, as preferências mais comuns são as formas de abertura que caracterizam o jogo: aberto, semiaberto, fechado, irregular ou hipermoderno. Note-se que as primeiras são documentadas há mais de 500 anos e as mais “modernas” ou recentes já têm registros com quase 200 anos. Curiosamente, por exemplo, um ser humano é geralmente mais eficaz que um computador neste momento do jogo, independente da potência do mecanismo artificial.
-no meio do jogo há uma planificação dinâmica e posicional, que toma a forma de uma interpretação constante da situação que se apresenta a cada lance do jogo. O único critério que se manifesta nesse momento que é concomitantemente tanto de planificação quanto de ação é a imanência do real, daquilo que inegavelmente está contido nas próprias condições atuais do jogo e suas implicações igualmente inegáveis para sua sequência. Esse é o espaço da manifestação criativa, justificada por uma objetividade que é orientada senão pela subjetividade que o jogador tem em si em todo o processo decisório, lidando tanto com as limitações posicionais e materiais, quanto com as possibilidades interativas que vislumbra.
-no momento final, as reduções materiais podem ou não ocorrer, embora geralmente ocorram, mas é o “estado final” das coisas que resta e este resultado é invariavelmente único. Uma posição final é irrepetível justamente pela infinitude de elementos que interagem entre si e que culminam com sua ocorrência. E, é justamente nesse sentido de infinitude, que há uma propriedade latente nas tricotomias para as limitações tecnológicas à época de Peirce (e que demandaram seu esforço para afirmar que são infinitas, entretanto somente detalhá-las e demonstrá-las em dez), mas que se concretizou operacionalmente com a tecnologia disponível na segunda metade do século XX. Pode-se afirmar que as tricotomias no processo de semiose são tão infinitas quanto o é um fractal, pois a infinitude é justamente sua característica primeira. Como exemplo “final” segue a indicação do fractal de Benoît Mandelbrot para apreciação estética, mas o mesmo se daria com quaisquer posições nos conjuntos de Julia-Fatou, Cantor ou outros. O link é http://www.youtube.com/watch?v=G_GBwuYuOOs

Da Relação com o Saber

A expressão “fracasso escolar” é algo que incomoda, que nos instiga a buscar respostas para tal situação. No texto de Bernard Charlot – Da relação com o Saber – Elementos para uma teoria,  chegamos a conclusão de que este campo está saturado de teorias construídas e opiniões de senso comum.
Partindo do pressuposto de que somente o homem não é, na origem, nada. O homem não é, deve tornar-se o que deve ser; para tal, deve ser educado por aqueles que suprem sua fraqueza inicial e deve educar-se, “tornar-se por si mesmo”, começamos assim, a compreender a importância desses conjuntos de relações e interações que são estabelecidas.
Segundo Charlot, esse sistema se elabora no próprio movimento através do qual eu me construo e sou construído pelos outros, esse movimento longo, complexo, nunca completamente acabado, que é chamado educação.
A educação é uma produção de si por si mesmo, mas essa autoprodução só é possível pela mediação do outro e com sua ajuda. A educação é produção de si por si mesmo; é o processo através do qual a criança que nasce inacabada se constrói enquanto ser humano, social e singular. Ninguém poderá educar-me se eu não consentir, de alguma maneira, se eu não colaborar; uma educação é impossível, se o sujeito a ser educado não investe pessoalmente no processo que o educa. Inversamente, porém, eu só posso educar-me numa troca com os outros e com o mundo; a educação é impossível, se a criança não encontra no mundo o que lhe permite construir-se. Desta maneira compreende-se o quanto o desejo é força propulsionadora que alimenta o processo.
Diante de tais considerações, passo a me questionar: Será que a escola possibilita esse desejo? Será que as crianças encontram neste espaço um espaço que educa?
O autor também apresenta que para haver atividade, a criança deve mobilizar-se. Para que se mobilize, a situação deve apresentar um significado para ela.
Outras inquietações surgem: Será que as atividades realizadas na escola permitem uma mobilização e apresentam um significado às crianças?
Charlot destaca que se o saber é relação, o processo que leva a adotar uma relação de saber com o mundo é que deve ser o objeto de uma educação intelectual e, não, a acumulação de conteúdos intelectuais. Trata-se de levar uma criança a inscrever-se em um certo tipo de relação com o mundo, consigo e com os outros, que proporciona prazer, mas sempre implica a renúncia, provisória ou profunda, de outras formas de relação com o mundo, consigo e com os outros.
Ao meu ver, esta citação é interessante para pensarmos sobre como essas relações de saber são necessárias para construir o saber e para apoiá-lo após a sua construção, não restringindo o saber aos conteúdos programáticos transmitidos nos bancos escolares, mas sim o estendendo a relações complexas.
Charlot também destaca que analisar a relação com o saber é estudar o sujeito confrontado à obrigação de aprender, em um mundo que ele partilha com outros: a relação com o saber é relação com o mundo, relação consigo mesmo, relação com os outros. Analisar a relação com o saber é analisar uma relação simbólica, ativa e temporal. Essa análise concerne à relação com o saber que um sujeito singular inscreve num espaço social.
Compreendendo a relação com o saber, desta maneira, mais ampla e profunda, nos permite compreender que não existe o “fracasso escolar”.

Priscila Sales Rodrigues                                                          

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Mudanças nas condutas didático-pedagógicas

 As contribuições de Eliane Gomes-da-Silva possibilitaram que eu refletisse sobre a minha prática pedagógica com crianças de educação infantil, como também, sobre a pesquisa que desenvolverei.
É possível afirmar que foram diversas contribuições, mas darei destaque ao que Gomes-da- Silva apresenta sobre condutas, de acordo com a perspectiva peirciana, o que proporcionou momentos de reflexões interiores, permitindo assim, reavaliar e repensar minhas condutas didático-pedagógicas.
Gomes-da-Silva (2012) apresenta que para melhor compreender a dinâmica da produção científica à luz da Semiótica peirciana, é preciso entender a relação entre a noção de signo trazida por Peirce, e a de conduta futura.
De acordo com a autora nossas condutas são movidas pelo objeto, o qual, por sua vez, necessita ser primeiro percebido, depois interpretado e finalmente aceito para ser conhecido e compreendido. É por levar em conta a necessidade de o processo educativo empreender investimentos formativos que acarretem mudanças nas condutas didático-pedagógicas dos professores – ou nas mudanças de seus hábitos de viver e interpretar o mundo e as próprias crianças e, portanto de dinamizar sua prática – que apostamos na possibilidade de o entendimento peirciano de ciência/produção de conhecimento, nos auxiliar na compreensão e transformação da Educação Infantil.
Afirma também que há muitos professores atuantes na educação infantil que estagnaram-se nas suas concepções de educação, de mundo e de criança, de sorte que se fecharam para as possibilidades de estabelecer novas relações interpretantes, de produzirem semioses, nas quais são indispensáveis para modificar sua prática pedagógica e, por conseguinte sua própria vida.
Este trecho apresentado por Gomes-da-Silva ilustra o que observamos nas instituições de educação infantil e até mesmo o que a sociedade pensa sobre os professores que atuam com esta faixa etária, afirmando que para lecionar para crianças pequenas não exige estudo e nem mesmo a reflexão sobre a prática, bastando simplesmente à mera reprodução de práticas utilizadas no decorrer dos anos.
Conforme estudamos, as crianças, na Educação Infantil, necessitam ser retomadas como o objeto vital da conduta pedagógica dos professores, o que implica em uma prática centrada na criança, não relegando- as juntamente com suas expressividades a segundo plano.
Levando isto em consideração precisamos encarar, conforme a autora nos apresenta, as práticas pedagógicas como processos eminentemente semióticos. Entendendo a semiótica peirciana como uma ciência que tem por função nortear condutas para encontrar/conhecer um certo objeto.
Como argumenta Peirce (1974, p. 151), a ocasião para ocorrer mudanças em condutas pode “ocorrer ou demasiado cedo ou demasiado tarde”.
É possível despertarmos para um novo modo de agir pedagogicamente mediante poucas ações intencionais, como também é possível que a mais bem planejada e implementada intervenção formativa, dispenda longo tempo e tenha pouco êxito.
São diversos os fatores que impulsionam o professor admitir ou não a necessidade de mudar sua prática, entre eles, conforme a autora elenca: o conforto, a convivência, a comodidade, enfim, estar habituado a um modo de agir pedagogicamente.
Azanha (1990, 1991, p.39) também dialoga nesta mesma direção e apresenta que o simples reconhecimento da existência de uma crise na instituição da escola deveria antes nos conduzir a rever nossas idéias sobre ela do que, apressadamente, levar a esforços para reformulá-la”.          

Priscila Sales Rodrigues